Casal Aventura

Casal Aventura

17 de abril de 2015

Puerto Madryn à Comodoro Rivadavia

Dia 06/dez
Puerto Madryn - Comodoro Rivadavia

Este foi um dia de fortes emoções, e o relato desse dia vai ser longo...

Como de costume, saímos do hotel por volta das 9:00hs depois daquele desayuno fraquinho.

De tanque e galões cheios do líquido precioso, voltamos para a Ruta 3, sempre para o sul. O destino do dia seria Caleta Olivia. Passamos direto pela pequena Trelew sem abastecer pois tínhamos rodado apenas uns 70 kms. Eu pretendia fazer um desvio no caminho para visitar a pinguineira localizada em Punta Tombo (eu disse PUNTA!).


Entramos à esquerda quando vimos a placa indicando a  piguineira e rodamos 75 kms por uma estradinha deliciosa onde não tinha absolutamente nada. Achei que haveria ali um vilarejo ou pelo menos uma estacion de serviços (é assim que os argentinos chamam os postos de gasolina). Demos de cara com uma porteira de fazenda com placas indicando que dali até a tal pinguineira seria mais 20kms de rípio.

Lucas logo precisaria abastecer, como sempre. Ficamos um tempo parados ali pensando: vamos ou não vamos? Seriam 40 kms de ripo entre ida e volta, mais 75kms para voltar para a ruta 3 e mais sabe-se lá quanto até o próximo posto de abastecimento. Nisso vem da estrada de rípio um caminhão num pau só e levantando um poeirão danado. Fizemos sinal e ele parou ao lado do Lucas. Era um casal de alemães de meia idade que estavam fazendo turismo por toda a America do Sul num caminhão 4X4 super alto com uns pneus enormes e a carroceria era um motor-home (os encontraríamos de novo, acreditem!). Deve ser muito legal viajar por aqueles lugares num troço desses.

Lucas pediu informações ao alemão, em inglês – é claro – e o cara foi muito solícito e atencioso. Disse que o rípio realmente era muito ruim, e procurou o posto mais próximo no GPS dele. Foi aí que eu descobri como se fazia isso. Que burro que eu sou! Chegamos à conclusão de que mesmo colocando o galão de 10 litros na XT ele não conseguiria ir até a pinguineira. Na verdade, mesmo seguindo direto ao posto ele teria de fazer a gasolina render para conseguir chegar. Eu mesmo teria de usar meus 5 litros na Strom e ainda rezar. Resolvemos ali que ele voltaria até a ruta 3 e eu tentaria visitar os pinguins. Nos encontraríamos novamente no próximo posto.


Entrei rípio adentro bem devagar, e depois de uns 2 kms me convenci de que isso não daria certo. O rípio estava realmente muito solto, com pedras grandes misturadas, e se eu caísse ali, o que não estava nem um pouco difícil, talvez não conseguiria levantar a moto sozinho. O Lucas tinha de estar junto, mas a autonomia da XT não permitiu. Dei meia volta e lá se foi meu passeio. Fiquei puto.

Voltei devagar pela estradinha, pensando em como esta viagem tão desejada estava se desenvolvendo, e não fiquei muito contente. Acho que não planejei tão bem quanto deveria, foi o que me veio na cabeça naquela hora. Mal sabia eu que ainda neste dia eu teria a constatação de que minha preparação feita às pressas para esta viagem me cobraria um preço alto.

Quando cheguei de volta à Ruta 3, que fica numa planície mais alta, o vento estava me esperando.

Um vento forte que soprava da direita para a esquerda e cheio de rajadas traiçoeiras que tentavam passar uma rasteira nas rodas da moto. Quem me visse balançando a moto daquele jeito acharia que eu estava completamente bêbado. A moto ia de um lado ao outro da pista e o esforço em mantê-la na pista correta, sem invadir a contra mão, era enorme. Mas aos poucos eu fui acostumando e balançava menos. Assim foi até chegar à estacion de serviços. Lucas também tinha acabado de chegar. Cheguei no cheiro. Dos 22 litros de capacidade do tanque, entraram 21,5! Mas ainda tinha o galão de reserva.

Depois de abastecermos encostamos as motos em frente à lojinha para comprar um Gatorade.

Na saída tinha um argentino chegando numa Falcon, o Pablo. Era um cara muito simpático, puxou conversa com a gente, mas eu ainda estava puto com o lance da pinguineira e não quis muita conversa. Quanta grosseria a minha. Depois fiquei até com vergonha.

O Lucas conversou com ele e disse que iríamos até Caleta Olivia. Então ele nos disse: no, ustedes tienen de ir a Comodoro Rivadávia!!! Está tiendo um encuentro de motos de los Choikes!!!

Fiquei meio sem entender nada, pois não tinha prestado muita atenção à conversa, mas o Lucas veio me explicar: naquele fim de semana haveria um Moto Encontro do Choikes MC na cidade de Comodoro Rivadávia e o Pablo estava nos convidando para participar. Como eu não estava num momento muito bom para fazer amigos, disse que seguiríamos com o planejado e o destino do dia seria Caleta Olívia.

Lucas percebeu que eu não estava legal e concordou comigo. Nos despedimos do Pablo e voltamos para a estrada.

O vento.

Agora o vento tinha despirocado de vez! Quanto mais a gente descia para o sul, piorava. Já tinha lido em vários relatos de quem foi a Ushuaia pela Ruta 3 que o vento castigava, mas não estava preparado para aquilo. Era um vento constante, que não dava trégua, e a cada 2 ou 3 segundos batia uma rajada que parecia ter o dobro da força e fazia com que a moto, que já estava andando inclinada a uns 20 graus, deitasse até quase raspar a pedaleira no chão! Era como se estivesse fazendo uma curva muito fechada em alta velocidade, só que tentando manter em linha reta. Muito doido. O esforço no pescoço (por causa do vento empurrando o capacete contra o rosto) e nos ombros e braços para tentar segurar no braço a moto na pista certa, era punk!

Passamos por uma região que tinha várias turbinas eólicas ao lado da estrada e pensei comigo: se este treco é movido a vento, está no lugar certo. Vá ventar assim lá na @#$%&...

Mas ainda iria piorar!

Em dado momento parei no acostamento para descansar um pouco os braços (faço isso a cada 1 hora para descansar a bunda também - faz parte do meu ritmo de viagem) e o Lucas veio falar comigo sobre o vento.

Estávamos assustados com a força daquele vento e também com o perigo daquela situação. Era muito tenso quando tentávamos ultrapassar algum caminhão ou veículo grande, porque o vento era bloqueado de repente, e se não levantássemos a moto muito rapidamente, iríamos parar em baixo das rodas traseiras. Às vezes o vento dava a volta por cima do veículo e vinha pelo outro lado, fazendo-nos inclinar para o lado contrário, e ao passar pelo veículo o vento vinha da direita com mais força ainda devido ao deslocamento de ar natural do veículo. Insano!!!

Numa dessas ultrapassagens o vento que peguei depois da ultrapassagem foi tão forte que me mandou quase para o limite do acostamento da pista contrária (que era de rípio fofo e ainda tinha um desnível para a pista) e eu não conseguia voltar, mesmo vendo que vinha um caminhão no sentido contrário. Quando iniciei a manobra de ultrapassagem vi que havia uma distancia enorme para executá-la, mas como não conseguia voltar para a minha pista o caminhão foi se aproximando, aproximando, e quando consegui arrastar no braço a moto de volta para a pista certa, já estava em cima. Não pude nem me dar ao luxo de ficar com tremedeira, tamanha a dificuldade em segurar a moto na pista.

Parados no acostamento, tínhamos de ficar em pé ao lado da moto para que ela não caísse, de tanto que balançava.

Numa dessas paradas vi que havia algo escorrendo pelas bengalas da Strom. Olhei mais de perto e era exatamente o que eu estava torcendo para não ser: óleo das bengalas, vazando absurdamente, dos dois retentores!

Não era um vazamentinho. Estava tudo babado de óleo. A impressão que deu era que todo o óleo tinha sido jogado pra fora. Não faço ideia de quando tinha começado aquele vazamento, mas certamente um retentor estourou e o esforço que eu estava fazendo com a moto andando inclinada numa espécie de contra-esterço para mantê-a em linha reta deve ter forçado as bengalas, e logo o outro retentor estourou também. Isso talvez até explicava um pouco por que eu estava tendo tanta dificuldade em segurar a danada no braço. Pensei comigo: agora fudeu!

O jeito era tentar chegar do jeito que desse à primeira cidade para ver o que faria da vida. E não é que a próxima cidade era Comodoro Rivadávia? Lá estaria havendo o encontro de motos!!!

Mas ainda faltavam uns 100 kms, que sinceramente, não sei como consegui chegar, naquelas condições. Não sei o que estava mais difícil de superar. Se era o vento, que só piorava à medida que íamos para o sul, se era aquela frente pulando feito cabrito pela falta do óleo que faz o serviço de amortecedor, a combinação dos dois deixando a pilotagem quase impossível, ou minha cabeça dando voltas pensando que talvez eu não encontrasse os retentores para trocar, e desta vez – ao contrário da viagem ao Atacama – eu não estava levando nenhuma peça de reposição, inclusive os malditos retentores! Que merda! Que vento! Que moto pesada! Que dor nos braços!


Seguimos a uns 80 km/h até chegar em Comodoro Rivadávia. Deus sabe como consegui chegar lá, pois ele ficou o tempo todo grudado em mim naquela garupa, me tranquilizando e protegendo. Só assim mesmo.

Chegamos e já fomos procurar hotel. Ou estava lotado, ou era muito caro, ou era péssimo. Resolvemos ir até o tal encontro dos Choikes MC, pois lá eu deveria encontrar motociclistas que conhecessem as lojas de repuestos para motos grandes, mecânicos, e talvez até ajuda para encontrar algum hotel, bom e barato.


O encontro dos Choikes

Rodamos um pouco até encontrar o lugar, que era meio afastado do centro da cidade, e quando entramos no lugar, que parecia ser um parque municipal, todos ficaram nos olhando e quando viam que as motos tinham placas do Brasil, ficavam impressionados e chamavam a atenção dos outros para a nossa chegada.


Pensei comigo: acho que vamos apanhar aqui! (brincadeira, pois já tive a oportunidade de vivenciar o respeito e a amizade que os argentinos tem pelos brasileiros, especialmente os motociclistas).

Assim que paramos as motos, lado a lado, bem no meio do agito do encontro, o Pablo, aquele cara da Falcon que veio falar com a gente no posto da ruta 3, veio nos receber e fez a maior festa.

Já começou a avisar pra todo mundo que éramos do Brasil, estávamos a caminho do Ushuaia, e que ele tinha nos convidado ao encontro. Virou uma festa, e em 5 minutos já estávamos até falando no microfone para todos os presentes, ao melhor estilo Porgunholês! Agora o encontro do Choikes MC era um evento internacional!!! Fomos cumprimentados e até abraçados pelos presentes. Quando dissemos então que tínhamos saído da Bahia para vir fazer moto-turismo no país deles, em especial o Ushuaia, quase fomos ovacionados.


Passado o frenesi inicial da nossa chegada, pedi ao Pablo me apresentar a algum mecânico que estivesse ali presente para eu expor minha situação. Ele estava bebendo uma mistura de Fernet (que é uma espécie de vermuth com teor alcoólico bem alto misturado com coca-cola) e insistiu para eu experimentar. Até que era gostoso. Ele disse que iria procurar um cara lá no bar, que estava instalado dentro de um salão (a única construção dentro daquele parque) e quando voltou me trouxe um copo de uns 700 ml daquele troço que ele estava tomando. Trouxe também o Daniel para me apresentar. Ele era mecânico nas horas vagas e foi altamente recomendado por todos com quem conversei a respeito do meu problema mecânico.

Depois de dar uma olhada nas “canelas” da V-Strom, o Daniel tinha uma notícia boa e uma ruim para me dar.

A boa é que eu não teria grande dificuldade para encontrar os tais retentores, desde que as lojas de repuestos estivessem abertas, o que me leva à notícia ruim.

A ruim é que aquele dia era um sábado, e já era tarde. Umas 21:00 talvez, e as lojas e mecânicas estavam todas fechadas. Domingo elas não abririam. Segunda elas também não abririam, visto que seria feriado (Dia da Virgem, Padroeira da Argentina, o mesmo de Nossa Sra. Aparecida no Brasil) e eu só conseguiria consertar a moto na terça feira.

Assim sendo, cheguei à brilhante conclusão de que só poderia seguir viagem na quarta-feira.

Fiquei em estado catatônico durante alguns minutos. Este atraso de 3 dias na programação, além do dia que eu já estava atrasado por causa da troca da corrente em Campaña, fariam com que toda a programação da viagem fosse para o espaço, pra não falar outra coisa.

Ainda ficamos lá no encontro durante mais uma hora e meia talvez. Foi o tempo que levei para conseguir tomar todo aquele Fernet com coca-cola, que não acabava nunca.

Estávamos extremamente cansados da viagem e da batalha árdua contra o vento. Ao menos o Fernet me fez não sentir mais dores no pescoço. Nem nos braços. Na verdade, não sentia mais nada, estava tudo anestesiado.

Seguimos algumas dicas que nos deram sobre hotéis e encontramos o Hotel Encina. O preço e o quarto eram medianos, mas a recepção e o restaurante eram legais. Resolvemos ficar lá mesmo. Estávamos cansados demais para tentar procurar outra coisa, e já era muito tarde.
Cada um pegou um quarto, mas tivemos uma rápida conversa antes de ir dormir.


Mudança de planos.

A espera de 3 dias para consertar a moto (talvez mais) faria com que eu tivesse de abortar a ida até Ushuaia, pelo motivo de que havia uma data certa para eu chegar à El Calafate encontrar com Andréa, que estava vindo de avião. Definitivamente, eu tinha de traçar um plano B.

Conversei com Lucas e de comum acordo resolvemos que ele tentaria seguir viagem solo, rumo à Ushuaia.
Não fazia sentido ele ficar lá parado sem fazer nada, só me esperando. Na verdade, antes de começar a viagem, eu já tinha combinado com ele que se algum de nós resolvesse mudar os planos durante a viagem, desde que não fosse devido a alguma emergência por motivo de doença ou acidente grave (que necessitasse da ajuda e apoio do parceiro) o outro seguiria conforme o planejamento da viagem.

E como o que é combinado não sai caro, decidimos nos separar a partir dali.

Hotel Encima – Médio – Valor da diária: $430 pesos
Gasto Combustível: $433 pesos

O vídeo você poderá assistir na próxima postagem....... aguardem!!!!

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